setembro 22, 2016

A minha aldeia - Praia da Areia Branca

setembro 22, 2016
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura... 

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

O poema é de Alberto Caeiro e lembra-me da Praia da Areia Branca, a minha aldeia, e de quanto gosto de viver aqui. Suponho que este sentimento não seja diferente daquele entre tantas outras pessoas, por tantas outras terras, mas, para mim, esta aldeia não deixa de ser especial.

Não é da praia que disso há muito por aqui, nem é das ondas que disso há melhor mesmo aqui ao lado. Nem é da noite, ou das estrelas, ou das arribas. Nem é do vento que desse há muitos que já o viam daqui para fora, ainda que depois, suspeito, viessem a sentir saudades. 

Não é do verão e da enchente de turistas e emigrantes, nem é do inverno e do frio que se faz sentir nesta praia. Não é, certamente, da temperatura da água, de que tantos fogem. Nem é das pessoas porque, e essa também é outra suspeita, os portugueses são bons em qualquer lado. Não, não é nada disto em particular. É do conjunto.

Esta aldeia é especial porque eu conheço estas pessoas e esta areia e esta noite. Este vento conheço-o eu, e a água fria já não me surpreende. É porque eu conheço estas arribas como a palma da minha mão, e delas vejo "quanto da terra se pode ver do Universo".


A Lua vista da Praia da Areia Branca, diferente de qualquer outro lado.










É um luxo poder viver aqui e fugir à confusão da cidade, onde "as grandes casas fecham a vista à chave". A Praia da Areia Branca é especial porque tem o melhor pôr do sol de todo o mundo! E é espetacular sair de casa e correr sem ouvir buzinadelas, respirar este ar, ver e sentir esta praia.

Não consigo imaginar viver noutro sítio e trocar de areia, ondas e pôr do sol. Ver as estrelas doutro sítio ou cheirar um mar que não é o meu. Saudades enquanto viajo, pertencem e sempre estarão ligadas à Praia da Areia Branca. Esta é a minha aldeia.

setembro 18, 2016

Correr - sofrer ou prazer?

setembro 18, 2016
Gosto de corrida, mas nunca gostei de correr. Sempre me fascinou aqueles que correm meias-maratonas, nem falando daqueles que se submetem ao sacrifício da maratona completa - 42 quilómetros! Como é possível alguém ter força para correr essa distância e durante tanto tempo? Para quem sempre correu 5km de puro sofrimento, estive longe de gostar de correr.

A primeira tentativa (séria) no sentido de vir a gostar de correr, chegou em Outubro de 2015. Na altura completei um desafio para O Macaco sobre escrita, meditação e desporto durante 30 dias. Para além de surfar e jogar ténis, corri algumas vezes, e comecei a ganhar o "bichinho". Infelizmente, como expliquei num artigo anterior, deixei de correr logo que acabei esse desafio. Estive a poucos metros, ou talvez a alguns quilómetros, de ficar viciado.

Scott Jurek, ultra-maratonista, e Arnulfo Quimare, o campeão dos Tarahumara, a tribo dos corredores. Foto de irunwithit.com 
Antes de prosseguir com o artigo, queria deixar uma nota ao leitor. Ao longo deste artigo uso várias vezes a palavra "correr". Isso aborrece-me porque gosto de escrever e não quero utilizar várias vezes as mesmas palavras, mas não consigo evitar esta palavra num artigo como este. Que solução tenho eu? Usar a modernice do "running"? Eu sei que em inglês tudo parece mais sexy e espetacular, mas...

Comecei a correr há 3/4 meses no contexto doutro desafio. Ainda com muito esforço, fui aumentando gradualmente a distância nos meus treinos - se hoje chego ao primeiro poste, na próxima corrida chego ao segundo e na seguinte ao terceiro. Ou isso, ou melhorava o ritmo da corrida ou corria mais devagar mas durante mais tempo. E nisso a corrida tem um grande potential de vicio – conseguimos facilmente, com algumas apps como o RunKeeper, medir a nossa progressão. Podemos aumentar o nosso nível de várias maneiras e ver como evoluímos nos últimos treinos.

É claro que ao final de algumas semanas estava a correr mais. Mas o que mudou a minha corrida, e me fez gostar do desporto, foram dois livros: Born to Run, de Christopher Mcdougall e Eat and Run, de Scott Jurek. Nestes livros aprendi muito sobre corrida, como correr e, principalmente, como gostar deste desporto. Aconselho estes livros a todos a quem falo sobre corrida (qualquer pessoa que fale comigo durante mais de 5 minutos). Durante o resto do artigo vou apresentar o que aprendi nos últimos meses. 

E agora estás a pensar, "então mas este tipo começa a correr há quatro meses, lê dois livros, e acha que tem moral para dar dicas sobre corrida?". Tens razão, não tenho autoridade nesta matéria, mas nos últimos meses fiquei motivadíssimo para correr mais e melhor. Além disso, não escrevia n’O Macaco de Imitação há algum tempo, e preciso mesmo de começar a publicar regularmente para que não seja o primeiro e último leitor de artigos como este. Sinceridade acima de tudo!

Os Tarahumara

When you run on the earth and with the earth, you can run forever. —Provérbio Rarámuri

Em Born to Run, Christopher Mcdougall começa por falar de uma tribo de grandes corredores, os Tarahumara (ou Rarámuri). Estes "mexicanos" conseguem correr centenas de quilómetros por brincadeira, e há quem diga que o campeão lá da tribo correu, certa vez, 700km.

Esta última informação parece-me precipitada, mas a verdade é que nesta tribo toda a gente adora correr - desde crianças que o fazem e os seus jogos andam todos à volta disso.

Os Tarahumara. Fotografia de coppercanyonexplorer.com
Por algumas vezes, os Tarahumara foram levados a participar em algumas provas nos EUA (coisa que deixou de acontecer porque não só são muito tímidos mas perceberam que estavam a ser explorados). Correram sempre sem esforço aparente, ficando em primeiro lugar ou lá perto, e acabando a corrida com um sorriso no rosto (ao contrário dos seus companheiros de prova).

Os Tarahumara dispensam também qualquer sapato de corrida. Usam apenas um chinelo atado à volta do pé. Para os Tarahumara, isso é mais que suficiente.

No final do livro, Christopher Mcdougall fala-nos de uma corrida que organizou, e participou, na terra dos Tarahumara. Aí juntaram-se os melhores corredores da tribo e vários da elite dos estados unidos, incluindo o famoso Scott Jurek. Como dizem os americanos, "long story short", os Tarahumara venceram (Scott Jurek vingou-se no ano seguinte, numa repetição desta corrida).

Os Rarámuri mostram que não são precisas grandes tecnologias para correr. Correr liga-nos às nossas origens como espécie (o próximo tópico) e conecta-nos com a natureza. A correr podemos ser felizes, ou, ainda melhor, somos felizes porque corremos. A prova redize numa floresta perdida no México.

Os humanos são maratonistas por natureza

Nós, os humanos, somos os melhores corredores do planeta. Não em velocidade, claro, que ninguém duvide que a chita ou a gazela é mais rápida que o Usain Bolt, o humano mais rápido de sempre, mas em resistência somos campeões.

Ao que parece toda a nossa estrutura permite-nos correr largas distâncias durante várias horas. Os outros animais não o conseguem fazer, pois ao contrário de nós, que conseguímos libertar calor enquanto corremos, estes têm de parar para recuperar forças. Antes dos supermercados e dos sapatos de corrida, os humanos corriam atrás dos animais durante horas, mais lentamente que estes é certo, até que esses tivessem de parar, mortos de exaustão.

Este pedaço de informação, só por si, motivou-me para voltar a correr e pesquisar tudo e mais alguma coisa sobre esta "arte". Porque se fomos feitos para correr grandes distâncias, há que cumprir com esse destino.

Ultra-running

I had pushed myself to what I thought were the outer limits of my capabilities and then pushed farther—on a vegan diet. Eat and Run, Scott Jurek

Em Born to Run e Eat and Run, conheci uma série de corredores que não ficam satisfeitos com a típica meia-maratona, ou a esmagadora maratona. Não. Estes senhores e senhoras correm 50, 100, 200 ou até mais quilómetros de uma só vez.

Scott Jurek é um dos atletas mais fascinantes neste domínio. Ganhou várias provas de topo do mundo das ultras-maratonas (mais que uma vez) tais como as famosas Badwater 135, nos EAU e a Spartatlhon na Grécia (246km de uma só vez!). Scott tem ainda o recorde americano da maior distância percorrida em 24 horas, 265km! (Nunca usei tantos pontos de exclamação, mas este senhor merece!!!!).

Scott Jurek. Foto de twitter.com
Pessoas como o Scott são fascinantes, e inspiram-nos a quebrar os nossos limites e a fazer o nosso melhor, seja isso correr ou qualquer outra coisa. Depois de conhecer a sua história, não pude deixar de pensar, "se ele consegue, provavelmente também consigo". Bem, talvez não 265 km de uma só vez, nem mesmo 100, mas uma maratona...fácil!

Ultramarathons tend to attract obsessive people. To undertake a race of over 50 miles requires training that can occupy 3 hours a day, a routine that involves cramps and pain and loneliness. Eat and Run, Scott Jurek

Os melhores sapatos de corrida são...nenhuns

Ok. Esta foi a maior revelação das minhas leituras. Porque sempre pensei que os sapatos de corrida eram necessários para uma corrida de qualidade. Ao que parece não são.

O sapato de corrida moderno foi inventado apenas na década de 70. Aí introduziu-se um sapato com muito amortecimento, reforçando bastante a zona do calcanhar. Isso fez com que os corredores, principalmente aqueles com menos experiência, mudassem a sua forma de correr.

Everyone thinks they know how to run, but it’s really as nuanced as any other activity,” Eric told me. “Ask most people and they’ll say, ‘People just run the way they run.’ That’s ridiculous. Does everyone just swim the way they swim?” – Born to Run, Christopher Mcdougall

Há uma maneira certa de praticar running? (não resisti à tentação da palavra inglesa). Tal como existe técnica na natação ou no ténis, há maneiras bons e maus métodos de corrida. Esses sapatos fizeram com que os corredores, inconscientemente, tocassem primeiro com o calcanhar no solo.

E qual é o problema de tocar primeiro com o calcanhar no chão? Não é natural. Basta correr descalço (se somos maratonistas por natureza, somos maratonistas descalçados também) para perceber como dessa forma é doloroso. O "ataque" ao solo deve ser feito com o meio do pé ou até mais à frente, não confundindo com o toque no solo com as pontas dos pés que fazemos quando estamos em sprint, com ou sem sapatos.

Curiosamente, não existe nenhum estudo que prove que o uso de sapatos de corrida tradicionais traz vantagens à corrida. A nike e as outras marcas de sapatos não o negam. E felizmente tem aparecido nos últimos anos uma nova moda – os sapatos minimalistas. Estes têm um menor amortecimento, são mais leves e flexíveis e a diferença da espessura da sola entre o calcanhar e os dedos é menor.

Dito isto, devemos correr descalços? Porque não? Eu experimentei, na praia e na ciclovia, e a sensação é espetacular. Agora não digo para deixar de usar sapatos de corrida, mas é preciso pesquisar aqueles que respeitam a anatomia do pé e permitem o seu movimento natural.

O essencial é correr da maneira certa. Lembro-me perfeitamente quando, ainda com os mesmos sapatos de corrida, mudei o meu método de correr. Seguindo uma série de regras que vi nestes livros e através de pesquisas em tudo o que é blogs de corrida, comecei a dar mais passos, mais pequenos. Nestas condições, o pé tem naturalmente a tendência a chegar plano ao solo. Ganhamos mais energia na corrida (porque tocar no chão com o calcanhar trava o movimento), cansamo-nos menos e temos menos lesões (e isto sim está provado).

Não deixei de usar sapatos de corrida - até porque corro vários quilómetros na estrada e ciclovia e terra e calçada - mas comprei uns sapatos (modelo abaixo) que acredito serem mais amigos do pé e do corredor. 
Skechers Go Run 4, os meus novos ténis de corrida. Foto de skechers.com
Um pequeno aparte. Empregado da loja da Asics do Colombo, não sei o teu nome, mas se tiveres a ler isto, peço desculpa por não ter comprado os sapatos na tua loja. Gostei de falar contigo sobre meias-maratonas, alimentação e técnicas de corrida, mas não tinha ideia que uns sapatos de corrida podiam ser tão caros. Desculpa, fica para a maratona!

Método de corrida

Já escrevi um pouco sobre isto no tópico anterior. Mas preciso de o reforçar. A técnica, para começar, é muito simples: passos pequenos e contacto com o pé debaixo do corpo, ou um pouco mais à frente. Poderia dizer também para fazer o contacto com uma parte mais dianteira do pé, ao invés do calcanhar, mas nos primeiros treinos não há que ter essa preocupação. Isso surgirá naturalmente.

Mas há que começar devagar! Mesmo correndo há algum tempo, usamos alguns músculos mais intensamente, especialmente os gémeos, correndo desta forma "natural". Para evitar 4 dias de sofrimento é preciso ir com calma. Eu sei porque foi isso que me aconteceu aconteceu no último mês – carreguei nos quilómetros porque achei que já sabia tudo e que os outros é que eram fraquinhos.
Contacto errado e certo do pé com o solo.
Quanto ao aquecimento, li que devia ser feito antes e depois do treino, e que devemos beber alguma água antes de começar a correr. Quando comecei a fazer estas duas coisas muito simples, as dores musculares diminuíram substancialmente.

E o quão rápido devemos correr? O melhor que conseguirmos (o nível vai aumentando com o tempo) mas evitando aquele esforço que nos leva a desistir de correr e a arrumar os sapatos durante mais alguns meses. É difícil explicar este conceito, só experimentando, mas devemos correr a uma velocidade que nos permita falar com uma pessoa ao nosso lado, quase sem problema. Esta regra é ouro. Ao correr dessa forma, não ficamos cansados (ou melhor, ficamos, mas não pensamos sobre isso) até com distâncias superiores ao que fazíamos anteriormente. A sensação é espetacular. Claro que, treinando para uma prova, fazemos tipos de treinos diferentes, com ritmos distintos. Mas, para começar, devemos correr lentamente e ir elevando o número de quilómetros feitos em cada treino. 

Existem outras dicas de corrida, mas essas vamos aprendendo com o tempo. Uma vez começando a correr, e começando a gostar de o fazer, todos começamos a pesquisar mais técnicas e descobrimos coisas novas.

Correr – 4 meses depois

Runners speak of feeling absorbed into the universe, of seeing the story of life in a single weed on the side of the road. Eat and Run, Scott Jurek

Já diz o ditado, quem corre por gosto não cansa. É verdade. As minhas sessões de tortura a correr deram lugar a corridas meditativas – quando corro com tanto gosto, e com tão pouco esforço físico e mental, que me deixo absorver intensamente pela corrida. 

E é engraçado - se correr ao meu ritmo, tal como expliquei acima, nem muito rápido nem muito lento, fico com mais energia ao longo do treino. Entro em modo automático e consigo curtir mais, ver o que está à minha volta e pensar na vida.

The longer and farther I ran, the more I realized that what I was often chasing was a state of mind—a place where worries that seemed monumental melted away, where the beauty and timelessness of the universe, of the present moment, came into sharp focus. Eat and Run, Scott Jurek

Onde quiz chegar com este artigo? Primeiro, dar a conhecer algumas das curiosidades sobre corrida e mostrar que há por aí uns "malucos" que correm por gosto durante várias centenas de quilómetros. Pretendi mostrar que correr pode ser tão eficaz para libertação de stress como a meditação (uma boa desculpa para quem, como eu, já tentou meditar por várias vezes sem sucesso). No geral, tentei mostrar que correr, além de ser saudável, pode ser uma fonte de felicidade (desde que não corras 10km descalço no primeiro treino).

Deste lado, acabei de me inscrever na meia-maratona de Lisboa, no dia 2 de Outubro, por isso estou a poucos passos (ou 21 quilómetros) de me tornar um corredor oficial, com medalha (de participação) e tudo. Mais tarde escreverei sobre essa experiência, a menos que desista ou parta um pé.

PS: Faltam-me referências neste artigo. Li uma série de blogs sobre corrida de onde tirei alguma informação que aparece neste post. Infelizmente já não me lembro por onde andei.

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agosto 23, 2016

Comer e Correr (Hábitos 4 e 5)

agosto 23, 2016
Ok! Eu sei, eu sei. Quem sou eu para falar de hábitos? Eu que estive 2 meses sem publicar nada n'O Macaco de Imitação, a não ser aquele post sobre a minha primeira aplicação (Kobo Notes). O que é feito da série dos 6 meses e 6 hábitos? Foi toda por água a baixo? Hum...mais ou menos.

Comecei este projeto e ainda trabalhei bem nos primeiros 3 hábitos. Comecei a concentrar-me melhor no trabalho e a organizar-me como gente grande. Experimentei, e consegui manter, provisoriamente, um pequeno hábito de meditação. Gostaria de escrever que ainda pratico estes hábitos. Mas não o posso fazer.

O que aconteceu? Foi o verão, foi a praia, foram as férias. Foi a preguiça, a falta de atenção ou a atenção que divergiu para outras coisas. Para outros hábitos? Sim. O 4º e 5º hábito desta série (se ainda assim a posso chamar) tocaram-me particularmente forte. São eles "fazer exercício regularmente" e "comer melhor", respectivamente.

Membros da tribo Tarahumara, que adoram correr e que por vezes correm 200km só na "brincadeira". Ouvi falar desta tribo, pela primeira vez, no livro Born to Run. Fotografia de coppercanyonexplorer.com
O primeiro destes hábitos, "fazer exercício regularmente" correu como esperado. Durante esse mês surfei, andei de skate, joguei ténis e corri. Nada de especial, nada de treinos intensivos, nada de que fugisse às expectativas. Comecei a fazer exercício físico, e valeu por isso mesmo. Mas o melhor viria de seguida.

Comecei o hábito 5 para aprender a "comer melhor". Não sabia, na altura, o que isso significava. Comer mais sopa? Mais fruta? Menos pão? Começar uma série de pequenos hábitos saudáveis de uma vez? De todos os hábitos até então, nenhum começaria por ser tão difícil, com tanto para aprender e aplicar. Os primeiros dias deste hábito seriam uma miséria, e já poucas esperanças tinha de começar a "comer melhor". Até que encontrei e comecei a ler uns livros...

Os próximos 4 livros podem muito bem ter mudado a minha vida radicalmente, mas só o tempo o dirá. Antes de mais, são eles:

Dois livros sobre alimentação (o que deve e não deve ser comido) e outros dois sobre corrida (em particular ultra-maratonas). Digamos que foram os quatro livros mais importantes e motivantes (particularmente o último destes) que li na minha vida.

Born To Run, de Christopher McDougall. Um dos meus livros favoritos de todos os tempos (sim, digo-o muitas vezes, mas a verdade é que os livros não me deixam de impressionar). Imagem de goodreads.com
E depois de ler estes livros os meus hábitos de corrida e alimentação alteraram-se radicalmente. Durante e depois de os ler, comecei a pensar em correr e comer bem durante grande parte do dia. E os meus amigos e família já não me podem ouvir falar destas coisas, particularmente da história dos "hidratos" (tópico que poderá ser explorando num próximo post).

O que aprendi ao ler estes livros? Não consigo explicar tanto, nem faria sentido fazê-lo, neste artigo. Aprendi coisas novas e outras que já sabia (mas que ainda não tinha aplicado ou ainda não tinha sido motivado a ir por esse caminho).

Aprendi a evitar comidas altamente processadas, refrigerantes, hidratos de carbono (os mais processados como a massa e arroz) e a comer verduras a toda a hora. Aprendi que os sapatos de corrida "tradicionais" (que foram inventados apenas na década de 70) causam lesões e que agora existem uns sapatos "minimalistas" que permitem, o mais possível, devolver o movimento natural ao pé. Aprendi que a maior parte dos corredores toca no solo com o calcanhar, e que isso não só está errado, mas é menos eficiente e causa lesões. Motivei-me com a história de pessoas que correm mais de 200km numa única corrida.

E agora o meu dia-a-dia tem sido muito diferente. Já não como, na maioria das vezes, o que costumava comer (e perdi 2/3 kg por causa disso mesmo). Tenho corrido bastante e tenho aumentado substancialmente os km e tempo por cada treino. Corri muitas vezes na praia, corri descalço na ciclovia por outras vezes (sim, descalço; o que parece faz bem) e estou mais motivado do que nunca para acabar a minha primeira meia-maratona em Outubro.

Os 3 primeiros hábitos dos 6 meses e 6 hábitos podem não ter corrido muito bem. Há que voltar a ganhá-los para conseguir trabalhar melhor. Mas estes dois últimos, que tão importantes são, foram "atacados" com uma força que não sabia ter. Gosto de pensar que compensei.

Mas muito ficou por falar sobre alimentação e corrida, que tanto espaço mental me ocupam por estes dias. Haverão mais posts sobre isso n'O Macaco. Só espero que não sejam apenas daqui a mais 2 meses.

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julho 28, 2016

KoboNotes.com, a minha primeira aplicação!

julho 28, 2016
Tenho andado desaparecido d'O Macaco de Imitação. Acontece que quando um desafio me bate forte, não consigo largá-lo nem por um momento. Além disso, estive de férias e, sinceramente, tive um bloqueio criativo que limitou (em 100%) a quantidade de posts escritos.

No último mês tenho andando a aprender a fazer websites usando várias linguagens de programação (HTML, JavaScript, CSS, PHP, MySQL...) e explorando ferramentas como Bootstrap e Wordpress. E enquanto fazia as aulas deste curso online fui apontando ideias de pequenas aplicações que pudesse fazer. Daí nasceu um pequeno projeto chamado KoboNotes.


Se és leitor d'O Macaco há uns tempos, ou mesmo sem o ser, é fácil de perceber que adoro ler. No ano passado li mais de 40 livros, quase todos utilizando o meu eReader Kobo Aura. É fácil de ler com o Kobo, porque posso transportar centenas de livros ao mesmo tempo, é leve e cabe-me no bolso. Com o Kobo é mais fácil ler muito, e aprender coisas novas (temas que irei explorar num próximo artigo).

Com o Kobo também posso sublinhar partes dos livros e mesmo tirar notas para ler mais tarde. Acontece que não existem (ou existiam!) boas soluções para retirar essas notas do Kobo, organizá-las, e lê-las no computador, no telemóvel, ou em qualquer lado. E isso chateava-me. Se queria ler todas as notas que tinha de um livro, e se queria guardá-las no PC, demorava quase uma hora a organizá-las. Decidi, por isso, com as minhas novas skills de programação web, desenvolver uma nova ferramenta para extrair e organizar essas notas tiradas do Kobo.

O KoboNotes já está online! Se tens um eReader Kobo, se conheces alguém que o tenha, ou se estás curioso quanto à aplicação, convido-te a visitar o website (nele apresento uma conta de teste para testares o KoboNotes à vontade).

Notas de um dos últimos livros que li, "Why We Get Fat". Esse será o tema de um próximo artigo.
Com o KoboNotes, precisas apenas de fazer upload de um ficheiro que está nas pastas do teu Kobo, e todas as tuas partes sublinhadas e notas nos livros que leste são transferidas para o site e organizadas. Podes depois ler essas notas quando quiseres (podes fazer uma conta e os teus dados são guardados) e até usando qualquer dispositivo.

O KoboNotes, apesar da sua pequena complexidade, não se fez sem os seus desafios. Não em termos de programação e estética do website, que apesar de ter dado algum trabalho, é algo que se vai fazendo. O verdadeiro desafio foi, e irá continuar a ser por algum tempo, convencer os utilizadores do Kobo a usar o KoboNotes. Logo que apresentei a aplicação em vários fóruns, comunidades e páginas relacionadas com eReaders, fui inundando de questões sobre a segurança do site. Garanti que não guardava nenhuns dados sensíveis sobre o dispositivo Kobo das pessoas, mas mesmo assim, acredito haver muitos leitores desconfiados.

Parte do Q&A do KoboNotes. Aqui respondo a várias dúvidas sobre a utilização da aplicação.
Descobri que até uma pequeníssima aplicação pode ter grandes desafios. Não faltaram pequenos artigos doutros blogs sobre o KoboNotes, mas todos eles colocavam algumas reservas quanto à aplicação. Logo lhes expliquei e clarifiquei alguns pontos e até acrescentei uma secção de perguntas e respostas no site, para tirar todas as dúvidas que pudessem surgir. 

Agora só o tempo dirá se o KoboNotes será uma aplicação de valor para todos os que gostam de ler. Neste momento sei que tenho alguns utilizadores, e isso já me deixa feliz.

E foi nisto que "gastei" parte do meu tempo no último mês. Fiz outras coisas, tal como começar o 5º hábito da série "6 meses e 6 hábitos" e ler muitas coisas sobre corrida e alimentação. Mas isso é conversa para um próximo post. 


Este artigo foi diferente do habitual. Em parte uma desculpa de porque não publiquei nada no último mês, mas também uma apresentação da minha primeira (e pequeníssima) aplicação. Espero que tenham gostado do KoboNotes!


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junho 13, 2016

Mini-desafio - 7 dias e 7 TED Talks

junho 13, 2016
Desde fevereiro que ando a tentar ganhar 6 novos hábitos em 6 meses. Tem sido um desafio interessante e as minhas novas skills têm-me ajudado a estar concentrado nas coisas importantes. Mas também tem sido um processo demorado (e assim é de propósito) e por isso senti que precisava de um novo desafio, mesmo que pequeno, para aprender qualquer coisa nova.

Foi por isso que na semana passada pedi ajuda aos leitores d'O Macaco de Imitação para escolher um mini-desafio - algo que pudesse fazer em poucas horas durante uma semana. No final escolhi ver uma TED Talk por dia durante 7 dias.
Logo do TED talks. Imagem retirada de ted.com
Estas foram as 7 TED talks que vi esta semana. Organizei os títulos pelos temas dos vídeos e sempre que possível acrescentei legendas em português. Todas as talks, à excepção da número 5, foram sugestões vossas. Obrigado!

1. Produzir comida no futuro

Aqui é apresentada uma solução para crescer comida de forma saudável e sustentável. Podemos vir a ter computadores que produzem comida, e podemos vir a partilhar receitas entre computadores em vez de enviarmos comida de um lado para o outro do mundo. Esta TED talk indica que podemos todos crescer a nossa comida e ter alimentos mais saudáveis. É certamente uma ideia com futuro.

2. Surf

Nesta Ted talk, Easkey Britton fala sobre umas das minhas grandes paixões, o Surf. Esse desporto que nos faz esquecer tudo o que está à nossa volta e que nos liberta de distrações. Ficamos em perfeito contacto com a natureza e durante aquele momento somos só nós e as ondas, em perfeita sintonia. 

Esta talk faz-nos pensar naquilo que gostamos de fazer e como podemos melhorar o mundo ao fazê-lo.

3. Aquecimento global e o país negativo em carbono - Butão

Na sua constituição, o Butão indica que 60% da terra, no mínimo, deve permanecer floresta para todo o sempre. As florestas do país estão também todas conectadas e é possível, aos animais, andarem livremente por todo o Butão, protegidos por reservas e parques naturais.

Esta talk comoveu-me e deu-me vontade de visitar o Butão. É impressionante o esforço que um país tão pequeno tem feito para salvar o ambiente e para melhorar a qualidade de vida e felicidade da sua população. Os maiores países, com mais recursos, têm muito a aprender com este pequeno grande exemplo. Foi a minha TED preferida da semana.

4. Máquinas voadoras

Estas pequenas máquinas voadoras podem ter um impacto gigante no futuro. Apesar de não ter sido uma grande TED talk, aconselho a sua visualização para que entendas a potencialidade destes pequenos robôs.

5. Dinossauros e procura de fósseis

Nesta talk aprendi que regras devem ser seguidas para encontrar fósseis. Não tinha noção de que seguindo estas "simples" indicações, é quase garantido encontrar qualquer coisa que tenha vivido há vários milhões de anos no nosso planeta.

Esta talk pertence a uma lista das melhores talks de 2016.


6. Detecção de som através de vídeo

O trabalho de Michael Rubinstein parece saído de um filme de espiões. Então não é que ele consegue detetar sons ou, melhor ainda, perceber o que está a ser dito numa discussão, apenas através de um vídeo da conversa? É possível detetar as mais pequenas oscilações nos objetos do dia-a-dia e daí reconstruir os sons do ambiente. Incrível!


7. Ser português

Finalizei este mini-desafio à tuga, vendo também a talk mais divertida da semana. Zé Pedro Cobra fala-nos nos hábitos portugueses e nas atitudes menos boas que nos caracterizam. O "vai-se andando", o culpar o outro, o "queixume" e tantos outros maneirismos.

Mas esta também é uma talk de esperança e sobre o que podemos fazer para melhorar. É sobre parar para pensar naquilo que queremos da vida. Porque "cada um faz o que quer, o problema é que nós não sabemos o que queremos e andamos atrás das coisas erradas".

"Não reclamem nada do mundo, ele não vos deve nada - chegou cá primeiro", Mark Twain

Bónus 1. Procrastinação

É difícil ver 7 TED talks sem procrastinar, vendo umas talks extra e voltando a ver as favoritas

Esta TED foi apresentada este ano pelo meu blogger favorito, Tim Urban, que escreve o blog WaitButWhy. Nesta ele apresenta o tema da procrastinação do mesmo jeito que escreve - com desenhos, com piadas, e com as melhores metáforas para que todos percebam a mensagem que ele quer transmitir. Esta é a minha TED favorita de sempre. 

Bónus 2. Desafios de 30 dias

Matt Cutts aprensenta uma das talks mais motivadoras de sempre em apenas 3 minutos. Esta, e outras coisas do género, motivaram-me para fazer os meus desafios de 1 mês, ou 21 dias ou 20 horas ou 1 semana

Tal como Matt diz, "Os próximos 30 dias vão passar quer queiram quer não, por isso, porque não experimentar qualquer coisa que sempre quiseram fazer?".


Nota final

Tenho amigos que me perguntam, "mas porque estás a fazer esse desafio"? A resposta é semelhante a outras perguntas sobre outros desafios - faço-o porque é divertido e porque sei que vou aprender coisas novas.

Este desafio ensinou-me que é possível aprender algo novo, informação essa que pode ser útil no futuro, em apenas 15 minutos por dia. Se assim é, porque não fazer mais coisas destas?

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junho 05, 2016

Sou boa pessoa, mas às vezes piso as dunas

junho 05, 2016
Devíamos todos reciclar. Devíamos todos ter um carro elétrico ou, melhor ainda, andar de bicicleta. Devíamos todos dar sangue e ser dadores de medula. Devíamos todos votar. Não devíamos pisar as dunas. E não devíamos comer carne; ainda me lembro daquilo que vi no Cowspiracy.

Devíamos também fazer exercício físico, todos os dias, e comer bem. Devíamos meditar, acordar cedo e não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. Devíamos ser mais organizados e ajudar as pessoas sempre que possível. Devíamos escrever uma lista de 100 coisas que devíamos fazer e devíamos fazê-las a todas. Ou não?

Claro que sim. Devíamos fazer isso tudo. Devíamos proteger o ambiente, os animais e ajudar os outros. Devíamos fazer sempre aquilo que é moralmente certo, independentemente das condições. Quem não o faz é ignorante, ou é estúpido, ou é, simplesmente, egoísta. Ou não?

Há tempos vi uma mensagem do género, "se queres que as pessoas façam alguma coisa, torna-o fácil, torna-o divertido". Apontei-a por ser tão importante. Ela recorda-me que as pessoas, quando decidem fazer alguma coisa, não só escolhem o que está certo, mas também aquilo que é mais fácil, confortável, barato, divertido e que lhes ofereça algum benefício. Não é que elas sejam más pessoas quando não reciclam ou não votam ou não doam sangue, mas às vezes é muito difícil fazer essas coisas todas.

É difícil fazer o que está certo. Se calhar tem mesmo de ser assim. O que é bom, e o que está certo, deve dar trabalho. Ou não? Talvez seja errado continuar a pensar dessa forma e, por não mudarmos essa maneira de pensar, as pessoas continuam a ignorar assuntos importantes tal como o ambiente.

O que está certo, e o que é importante, não tem de ser difícil

Um dia estudava no técnico quando reparei numa campanha de recolha de sangue numa das salas de estudo. Diziam que ofereciam lanche caso ajudássemos. Por vontade de ajudar, ou porque estava com fome, participei. A verdade é que a razão não interessa. Fiz o que estava certo - ajudei alguém em necessidade. Terem ido diretamente à minha faculdade e terem oferecido lanche só facilitou a minha ajuda.

Ou dando o meu exemplo favorito. O Elon Musk formou a Tesla – empresa de carros elétricos – porque queria resolver o problema da poluição. Desde cedo percebeu que se fizesse um bom carro, e não apenas um excelente carro elétrico, teria mais sucesso. Agora as pessoas começam a comprar estes carros porque são melhores e fazem-lhes poupar dinheiro. Ah, sim, e também ajudam o ambiente. As pessoas fazem o que está certo, mas não têm de gastar um dinheirão ou prejudicar a sua vida por causa disso.

O que está certo não tem de ser difícil de fazer. Não tem! Se as pessoas pudessem votar online não haveria tanta abstenção; se houvessem ecopontos em todas as ruas as pessoas reciclariam mais; se a fast food não fosse tão barata e tão boa e tão acessível, as pessoas comeriam melhor.

A solução é simples. Temos de ajudar as pessoas a tomarem boas decisões, mostrando e dando-lhes benefícios por ajudarem o ambiente, os animais, ou qualquer outra coisa importante. Este site premeia ideias originais, divertidas e que estimulem bons comportamentos nas pessoas. Por exemplo, o vídeo seguinte mostra como se conseguiu estimular o uso de escadas ao invés de passadeiras rolantes.


Paremos de pensar que as pessoas são perfeitas e que tomam sempre a decisão certa. Todos nós procuramos sempre o melhor para a nossa vida. Às vezes tomamos decisões moralmente erradas, ou ignoramos aquelas que estão certas, porque temos de nos "safar". Com ideias como a anterior, podemos ajudar as outras pessoas, ou o ambiente, ou qualquer outra coisa, e ainda "lucrar" com isso. Só temos de dar claros benefícios às pessoas que tomam decisões moralmente certas.

A nível pessoal – atingir objetivos, adquirir hábitos, aprender algo novo – acontece a mesma coisa. Vivemos numa cultura que nos diz que o que faz bem é muito difícil e um sacrifício. Mas não tem de o ser. Podemos ganhar hábitos de forma sustentável e aprender coisas novas rapidamente, se adotarmos a técnica e atitude certas. Só precisamos de pensar mais um bocadinho.

Conhece a página do Facebook d'O Macaco de Imitação.

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junho 02, 2016

O que é O Macaco de Imitação?

junho 02, 2016
Não é raro ser alvo da pergunta, "o teu blog é sobre o quê?". Também não são escassas as vezes em que não sei o que responder. A pergunta é mais complexa do que parece. Devo responder sobre o que tenho escrito até agora, ou sobre o que gostava de escrever no futuro? Devo dizer qual é o objetivo do blog? Não quero confundir ninguém.

Com O Macaco de Imitação pretendo mostrar que qualquer um pode aprender coisas novas, rapidamente, e que devemos estar sempre a crescer. Por isso, desafio-me e escrevo sobre essas experiências. Desafiei-me a aprender piano em 20 horas, a passar uma semana (168 horas) sem internet, a tirar fotos a todas as fases da lua, a fazer 30 dias de exercício, meditação e escrita e a ganhar 6 novos hábitos em 6 meses

Por outro lado, escrevo post do género "como fazer isto ou aquilo". Nesse sentido escrevi sobre quais os passos para ganhar um novo hábito, como meditar (para totós), quais os 20 (pequenos) passos para aprender qualquer coisa rapidamente ou como testares a tua personalidade.

Mas eu não invento estes temas, e desafios, do zero. A minha inspiração vem de vários blogs e livros. Por isso, escrevo também sobre o que vou aprendendo com eles. Gosto de ler sobre psicologia e produtividade e histórias de quem sonhou e alcançou. Também gosto de ler histórias de ficção e ficção científica. E vou partilhando alguns posts sobre os meus livros favoritos.

Em bom rigor, a pergunta "O que é O Macaco de Imitação?" não se pode separar de outra - "Quem é O Macaco de Imitação?". O que é é um reflexo de quem o faz. Por essa razão, os artigos por vezes fogem do "principal" – dos desafios, dos artigos nos quais mostro como se faz qualquer coisa e dos livros de onde tiro a inspiração para os meus posts. Nessas alturas o blog torna-se num diário – desabafo sobre o que faço, sobre o que vejo e sobre o que sinto. Escrevo sobre surf, sobre crises, sobre as injustiças deste mundo e ponho em perspetiva os meus (ou nossos) problemas do dia-a-dia.

Mas O Macaco não vive só no meu portátil e nestas linhas que escrevo. O Macaco sou eu, e por isso acompanha-me naquilo que eu mais gosto de fazer – viajar. N'O Macaco de Imitação vou escrevendo sobre as minhas viagens - à Turquia, aos Bálticos, à Itália. Quando chego, percebo a beleza do nosso país e também não deixo de o partilhar.

O Macaco de Imitação também não se fecha, e sempre que possível partilha projetos e pessoas interessantes, que ousaram fazer mais e melhor. Espero no futuro ter mais destes artigos – trazer mais pessoas, com outras experiências, outros desafios, outras perspectivas.

Concluindo, O Macaco de Imitação não é diferente da pessoa que o escreve. Não se limita a viver um e um só tema e se esquece do que está à sua volta. É, principalmente, sobre desafios e sobre como crescer, sempre. Mas, noutras alturas, é sobre a vida, sobre viagens e sobre outros projetos.

Para mim, autor, O Macaco de Imitação é também uma desculpa, e uma motivação, para estar sempre a estudar, para começar novos desafios e ganhar novos hábitos. Organiza-me os pensamentos e nele partilho, com outros curiosos, estas experiências que me têm feito crescer. 

Espero que, com este post, tenha respondido à questão inicial. Se não, não faltaram artigos que me justifiquem.

maio 30, 2016

BOOGIE WACT - Voluntariado e Bodyboard em São Tomé - artigo de Francisca Veiga

maio 30, 2016
Poderia reduzir toda esta experiência a uma só palavra. Palavra tão portuguesa, mas do jeito santomense: sodade. No entanto, espero conseguir transmitir-vos um pouco mais do que isso. Isto que se torna um grande desafio - expressar por palavras o que senti no curto espaço de tempo mais rico de toda a minha vida.

Tudo começou em Portugal. Inscrevi-me numa ONG, a WACT (We Are Changing Together), que se diferencia pelo facto de dar oportunidade aos seus formandos de criar o seu próprio projecto. Foi assim que surgiu o Boogie WACT, após um levantamento de problemas santomenses, aliado àquilo que mais gosto de fazer, Bodyboard.


O Boogie WACT surge de forma a trabalhar valores educativos com crianças de forma divertida através do desporto, neste caso, do Bodyboard. Este é um ótimo meio para desenvolver valores e competências como responsabilidade, respeito, resiliência, desafio e cooperação.

Ainda em Portugal foi feita uma campanha de recolha de material, conseguindo angariar todo o material da modalidade necessário à prática do projecto. Desde já aproveito para agradecer a todas as pessoas e marcas que contribuíram com pranchas, pés de pato, shop’s e palavras que me fizeram ter confiança e acreditar realmente nisto.


Mas tudo começou verdadeiramente em São Tomé. Logo no primeiro dia fui confrontada com aquilo que a raposa do principezinho diz “O essencial é invisível aos olhos”. É em São Tomé que, para mim, esta frase ganha um verdadeiro sentido.

Os primeiros dias passados em São Tomé, de visita às roças perto do local onde morámos, Guadalupe, são um misto de emoções e sentimentos meio inexplicável. Olhei à volta e via uma pobreza com a qual nunca me tinha deparado. Vejo porcos e galinhas a deambularem pelas ruas no meio das pessoas. Vejo crianças curiosas a correrem descalças e rotas, em total liberdade pelas ruas imundas e cheias de pó, a tocarem-me como se fosse uma extraterrestre mas, no minuto seguinte, a lutarem para me darem a mão. É um misto de cheiro a peixe podre com aquele cheiro típico santomense, com lixo.



E o modo de vida daquelas pessoas…tudo isto me fez entrar em choque comigo mesma, porque ali não havia aquelas coisas que o mundo diz que são importantes. Mas ao mesmo tempo, via sorrisos brancos radiantes em rostos contrastantes de ébano, e força e profundidade de carácter nos olhos das pessoas.  Ouvia vozes felizes, risos cantantes, e assim percebi que ali havia tudo o que era realmente importante - paz e uma alegria inquestionáveis.

E eu, eu também o senti! E neste momento, não me consigo imaginar mais feliz do que fui em São Tomé. Passado o choque, foi instantâneo o amor que senti por aquele lugar e por aquelas pessoas.

Após este choque cultural (e interior, para dizer a verdade), estava na hora de colocar mãos à obra e começar a pensar no projecto. Deparei-me com um problema. O projeto que tinha desenhado para ser implementado em Santana, fez-me viajar uns km’s mais a sul, para Ribeira Afonso, por me deparar com uma comunidade mais carenciada e que oferecia melhores condições de segurança para a prática do Bodyboard.


Ainda assim, a sorte estava do meu lado. No primeiro dia de visita à praia das Sete Ondas deparo-me com um ambiente fascinante: vegetação que abraçava toda a praia, boas ondas, e a sorte de encontrar as pessoas certas que acabaram por me acompanhar sempre. Conheci três jovens escuteiros mais ou menos da minha idade, e uma senhora mais velha. Todos muito responsáveis, e figuras de valor perante as crianças da comunidade, como uma espécie de irmãos e mãe, não só para as crianças, mas também para mim. 

Foram eles que me receberam e acolheram, e fizeram-no de forma tão reconfortante que neste momento o Boogie WACT está lá, mesmo eu estando cá. E o mesmo acontece com o meu coração.

O que me assustou mais nesta mudança para uma comunidade mais distante da cidade, era o tempo que iria passar em viagens de hiace. Hiace, que aventura! Uma carrinha de nove lugares, onde o habitual é andarem 15 pessoas (no mínimo), e que me fez começar a perceber um bocadinho daquela língua melodiosa. Oh, quantos pedidos de casamento recebi eu naquele ambiente (romântico?).


Com o sovaco de uma senhora a roçar-me bem perto do nariz, com uma perna minha entre as pernas de outra senhora, com duas crianças a pingarem ranho do nariz ao meu colo e com um alguidar de peixe minado de moscas algures perto de mim. Eu só lhe sentia o cheiro, por ter a visibilidade reduzida pelo excesso de população que ali se encontrava naquele cubículo sobre rodas, Kizomba em volume máximo, e claro, todos aos berros.

Uma condução exímia, não pela positiva, mas os buracos na estrada não ajudavam, fazendo com que 70 km diários fossem feitos aos zigue-zagues e acabassem por parecer intermináveis. Mas ao fim de dois dias tudo isto já me parecia normal, já todos me conheciam como a “brranca” e, sem me aperceber, quase que já agia como eles. Por pouco não comecei a falar crioulo também.



Rebobinando. No dia de apresentação do projecto a Ribeira Afonso, já com a minha equipa de monitores formada, apareceram-me cerca de 150 crianças à minha frente a gritaram “eu quero correr prrancha, me escolhe”. O que é que eu faço à minha vida?

Não imaginam o desespero que é ter de escolher apenas 50 destes miúdos. Queria que todos ficassem, mas não podia comprometer a segurança de nenhum deles. E assim foi, 50 filhos que tinha ganho naquele momento, à minha frente, ansiosos por aprender o que eu tinha para lhes dar, mas ao mesmo tempo felizes por saberem que eu também queria aprender algo com eles.


O primeiro dia passado na praia com as crianças foi dedicado a explicações do projecto, regras e responsabilidades. Achava que seria um desafio, por ir já de sobreaviso de Portugal: “Olha que eles não cumprem horários”, “Olha que eles não aparecem todos os dias”. Pois é, neste momento eu assemelho-me a um pavão, porque nunca tive de combater esses problemas, uma vez que os miúdos estavam tão excitados com o Bodyboard que chegavam às aulas antes de mim, e raramente falhavam. 

Depois foi a vez dos miúdos me ensinarem alguma coisa, como por exemplo, trepar a um coqueiro. Diga-se de passagem, tentativas falhadas, mas risota na certa. Bolas, sou um falhanço!

Parece que tenho este momento gravado na memória. Não a tentativa de subir a um coqueiro, que é para esquecer, mas o de estarmos todos sentados a comer cocos, caroço e cana-de-açucar, e de todos me chamarem para ver as suas habilidades “Frrancisca, Frrancisca, vê”. De todos rirmos muito, rirmos da parte mais intima do nosso ser, rirmos com a alma, e de eu pensar: já não vejo sujidade, já não vejo doenças, vejo apenas crianças perdidas de amor e eu faminta por partilhar isto com elas. Era esta a minha família nas próximas semanas.


A primeira aula que dei foi extasiante - colocar aqueles miúdos em cima de uma prancha, a cumprir objetivos e responsabilidades, a refletirem sobre as suas aprendizagens, e a conseguirem fazê-lo. Isso fez de mim a pessoa mais feliz do mundo. Comecei a pensar “isto é real, eu estou aqui e estou a conseguir. E ver o sorriso deles quando deslizavam uma onda, fazia-me sorrir ainda mais.

Passado uma semana, já todos cortavam a onda. Passado duas semanas alguns já queriam começar a fazer “girro” ou, melhor dizendo, 360. Com o passar do tempo, notei uma melhoria acentuada no discurso reflexivo deles, no feedback que davam aos colegas e na cooperação inter-grupo. E é aqui que me cai a ficha, “isto realmente está a resultar, os miúdos estão a crescer graças ao Bodyboard”. E também sentia profundamente que estava a crescer graças a eles.


Após a aula de cada dia não conseguia voltar logo para casa. Todos me queriam mostrar algo, todos me queriam ensinar algo. E foram assim passadas as minhas tardes depois das aulas. A jogar ao jogo da lata, a (tentar) pescar polvo, a jogar à bola com uma bola de pano e sim, tão descalça quanto eles. Também foram passadas a treinar a subidas aos coqueiros, a fazer acrobacias na praia, a ajudá-los a buscar água para as suas famílias, a lavar as suas roupas e a passear para as roças mais próximas de Ribeira Afonso.

Os últimos dois dias foram dedicados a um campeonato Boogie WACT. Mais uma experiência para a qual não encontro palavras para descrever. O que senti quando os vi competir? Primeiro um orgulho imenso por os ver a cortar ondas, muitos deles a tentar e alguns até a conseguir fazer 360 (versão santola). Mas quando alguém o fazia, inevitavelmente eu fazia uma festa como se tivesse ganho a lotaria.


Senti também que eles sentiam exatamente o mesmo que eu sentia quando era eu a competir. Cada um ia para o seu canto aquecer e concentrar-se, com nervos à flor da pele. E quando saíam e sabiam que tinham perdido o heat, os olhos deles brilhavam de lágrimas, e encostavam-se a um canto a refletir sobre o que tinha corrido mal. Até aqui, objectivo cumprido. Mais uma aprendizagem - lidar com a derrota. Mas ainda era difícil para eles verem o lado positivo disto.

Algo de que eu nunca me vou esquecer, para além de tudo isto, é do caminho para a praia. 25 crianças, 4 monitores e eu, mais uns curiosos que vinham sempre ver as aulas. Cada aluno com a sua prancha na cabeça, cantávamos e dançávamos o caminho todo, com aquele sorriso contrastante deles e de forma a combater a ânsia de chegar à praia e atirarem-se à água para surfar.


“1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 nós somos Biguie Uequi, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 Biguie Uequi há só um. A Frrancisca apareceu, Ribeirr’Afonso agrradeceu. Eu só quero aprrender, o Biguie Uequi faz crrescer, o Biguie Uequi faz crrescer”.

Saio de São Tomé com a certeza de que entreguei o meu coração a um lugar onde nunca tinha estado. Todas as palavras se tornam pequenas para transmitir uma fração que seja desta experiência. Oh, o que eu aprendi com estes corações radiantes. Hoje, inspiro fundo para que o ar me relembre aquilo que só consigo descrever como “São Tomé”.



Em Julho de 2013, quando fui para São Tomé, achava que ia mudar aquelas crianças. E acho que mudei! Mas regresso com a certeza de que elas me mudaram a mim. Trago comigo também a convicção inabalável de que as pessoas são o que mais importa. Estou determinada de que não sou eu que vou mudar o mundo. Mas contento-me com esta pequena mudança. Pequenas mudanças que se vão acumulando.