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A minha cerveja artesanal

Fazer cerveja é facílimo. Não há nada mais simples e básico. É comprar o material, seguir a receita e voilà. Depois é desfrutar de uma cerveja que não é vendida em lado nenhum, que é nossa. É ver a cara de espanto dos nossos amigos que nunca pensaram que conseguisses produzir uma cerveja artesanal que “não está nada má”.

Sim, fazer cerveja também é isso. É fácil começar e produzir os primeiros litros. Mas então e produzir o verdadeiro néctar dos deuses? Uma cerveja ao nível das grandes cervejas belgas. Uma cerveja que envergonhe qualquer distribuidor de Super Bock. Uma cerveja tão boa que depressa nos esquecemos dos problemas do dia-a-dia, das ansiedades, de jantar sequer. Essa não tem receita. Para produzi-la há que estudar muito, experimentar mais e beber, beber, beber.

A primeira prova da nossa cerveja artesanal Pilsner

O principio

Comecei a escrever (ultimamente menos) porque leio imenso. Deve acontecer com qualquer leitor voraz – querer imitar, e depois inventar, algo que tanto consome. Uns nunca chegam a fazê-lo, outros vão fazendo e outros tornam-se grandes escritores. Só o tempo dirá quem é quem. Ora beber cerveja e produzi-la não é em nada diferente.

No principio havia eu, com vontade de beber uma cerveja minha. Depois arranjei um sócio que também gosta de beber muita e boa cerveja e convidei-o a partilhar esta experiência (e custos) comigo. Lemos umas coisas gerais sobre a sua produção no google e aprendemos (em cima do joelho) o processo de fermentação. Depois fizemos um novo amigo – que tem uma loja de cerveja artesanal por ele produzida aqui na Praia da Areia Branca – que nos deu imensas dicas sobre tudo isto. E finalmente comprámos o material necessário e os ingredientes para produzir 23 litros de Pilsner.

O material

Mais coisa, menos coisa, o material para produzir cerveja artesanal é este:

  • 2 baldes de fermentação – um para a fermentação inicial e outro para onde transferi-la e misturar o resto do açúcar.
  • Borbulhador – para que o CO2 produzido pelas leveduras possa sair durante o processo de fermentação no balde.
  • Torneiras para os baldes
  • Uma colher grande (ou coisa parecida) para misturar os ingredientes no balde
  • Garrafas e caricas
  • Ferramenta para colocar as caricas nas garrafas
  • Star-San e desinfetante para lavar e desinfetar o material todo
Árvore de cervejas
Algum material – caricas, garrafas, ferramenta para encaricar?!
Garrafas em segunda mão compradas ao nosso amigo e mestre cervejeiro Jeff
Lavámos as garrafas todas e tirámo-lhes os rótulos. Não deu trabalho nenhum…

No início da produção, pelo que eu percebi, não há que ter preocupações sobre materiais e ingredientes. Compramos um dos kits disponíveis já com o material todo e estamos prontos. Nós comprámos o Kit Deluxe que trás já os 2 baldes de fermentação que o kit mais básico não trás. Depois comprámos umas garrafas usadas ao Jeff (o nosso mestre cervejeiro), e lavámo-las MUITO bem. Mais tarde, quando fizemos a nossa segunda cerveja, decidimos melhorar o nosso set e comprámos algumas coisas (um escorredor e lava-garrafas) facilitar o nosso trabalho.

Os ingredientes

O Kit não vem com ingredientes, ao contrário do que pensava inicialmente. Estes são comprados à parte. A nossa escolha de cerveja inicial, como escrevi acima, foi a Pilsner. Passado um mês comprámos uma nova lata, agora para produzir uma cerveja mais preta. Ambas as latas produzem 23 litros de cerveja.

Estas latas têm o extrato de cerveja necessário para a produção da nossa pomada. Há excepção disso, precisamos apenas de água (os litros são especificados na receita que vem com as latas, mas para as nossas cervejas estava à volta de 25 litros).

A lata da primeira cerveja produzida, já em banho-maria.

A produção de cerveja artesanal

Não vale a pena alongar-me muito nesta secção. Primeiro, esta informação está por aí disponível na net. Segundo, e muito sinceramente, ainda não sei bem o que acontece dentro do balde. Eu sei, mas muito por alto, e não o suficiente para escrever sobre isso com confiança tal que possam desse lado dizer – o chico percebe mesmo disto. Não.

O processo (assim por alto):

  • Lavar e desinfectar todo o material – este é sem dúvida o passo mais importante. Sem uma boa desinfetação podemos acabar com uma cerveja que sabe mal porque tem lá outras coisas que não queremos. Por isso, se fizeres cerveja artesanal, lava tudo muito bem. Além disso, anda com uma bisnaga para ires desinfetando as mãos. Apesar de ser chato, e de ocupar 80% do tempo total da preparação da cerveja, não podemos fugir da limpeza.
  • Aquecer a lata em banho-maria e colocar todo o conteúdo num dos baldes. Ir diluindo com água quente e garantir que nada fica dentro da lata. Mexer o balde.
  • Acrescentar mais água quente no balde com 1kg (ou a quantidade especificada) de açúcar.
  • Colocar água fria dentro do balde até perfazer o total de água que é indicado na receita. Ir mexendo tudo.
  • Acrescentar as nossas amigas leveduras no balde. Estas vêm já com a lata de fermentação, num pacote de plástico à parte.
  • Fechar o balde e esperar cerca de uma semana e meia. Esta é a fase de fermentação na qual as leveduras convertem o açúcar em álcool e CO2. O CO2 vai saindo pelo borbulhador. Passado um dia a borbulhação deve estar forte. Quando ela cessar ou estiver muito fraquinha, a cerveja está pronta para a nova fase.
  • Transferir a cerveja para outro balde, utilizando a mangueira que vem com o Kit, devagarinho e com muito cuidado para não criar espuma e não entrar oxigénio na cerveja.
  • Colocar mais açúcar no novo balde (quantidade especificada na receita).
  • Vazar a cerveja nas garrafas com a mangueira e fechá-las – a parte mais gira disto tudo.
  • Esperar, esperar e esperar. Quanto tempo? Todas as receitas variam. Mas há que esperar à volta de 1 mês e meio. Na receita que vinha com o kit de equipamentos até dizia 3 meses, mas nós decidimos ignorar essa estimativa. O que fizemos foi ir provando todas as semanas para sentir a evolução do nosso néctar e parámos quando já não estava a melhorar. Essa foi a sugestão do Jeff.
  • Colocar a cerveja no frigorífico, esperar um pouquinho, abrir, servir, beber e fazer aquele som que todos fazemos quando bebemos uma cerveja fresquinha – ahhhhhhhhhh.
A colocar o conteúdo da lata de Pilsner num dos baldes
O Rui a mexer a pré-cerveja – o conteúdo da lata, muita água, açúcar e leveduras
A fermentar. Pelo borbulhador sabemos que as leveduras estão a fazer o seu trabalho.
Fermentação inicial terminada. Está na altura de transferir a cerveja para o outro balde, com muito cuidado, e adicionar o o açúcar final.
Os detritos que não queremos que passem do primeiro balde para o segundo.
Depois de adicionar o açúcar final, está na altura de engarrafar a cerveja.

Outros pensamentos?

Isto de seguir uma receita é fácil, se as receitas fossem todas iguais. Ora acontece que o kit de equipamento tem uma receita, a lata tem outra e na net existem outras. São diferentes nos tempos de espera ou nas quantidades de açúcar que devemos acrescentar antes de engarrafar a cerveja. Além disso, enquanto a primeira quantidade de açúcar parece ser concensual (1kg) a segunda quantidade varia entre receitas e é especificada como X colheres de chá.

Por outro lado, a nossa confusão não existe só porque sim. Se as receitas variam (para o mesmo tipo de cerveja) então é porque há margem de manobra e temos de perceber aquilo que tem de ser feito sempre assim e aquilo que pode ser feito desta ou daquela maneira. Investimos algum tempo a perceber essas coisas.

E açucares? Compramos o normal ou amarelo? Ou compramos malte em pó? Bom…não há “receita” para isso. Na nossa primeira cerveja, a Pilsner, usámos o simples açúcar branco. Na segunda, na Nut Brown Ale, usámos açúcar amarelo. Detectámos diferenças? Claro que não! As cervejas eram diferentes há partida. Mas tencionamos fazer experiências no futuro, produzindo a mesma cerveja em dois baldes e variando o tipo de açúcar.

Mexer, mexer e mexer.
A nossa mesa de trabalho

E ainda há a questão dos lúpulos, que são umas ervas que se acrescentam à cerveja no processo de fermentação para acrescentar uns…sabores? Bom, ainda não sei bem para o que servem, mas também planeamos fazer uma experiência de “mesma cerveja, com lúpulo ou sem lúpulo”.

No geral, como espero ter dado a entender, há muita variabilidade neste processo. Há receitas, sim, e com essas já nos safamos. Mas depois há muito com que podemos experimentar e várias alterações ao processo e ingredientes que podemos implementar.

O presente e o futuro da nossa cerveja

Eu e o Rui, o meu sócio, somos mais felizes do que quando começámos. Aprendemos a fazer cerveja, fomos ajudados por um grande mestre cervejeiro e produzidos 23 litros de Pilsner e 21,5 litros de Nut Brown Ale (o que aconteceram ao 1,5 litros que faltam? ainda hoje não sabemos).

Resta saber o que achamos da cerveja. Está aceitável? Boa? Néctar dos deuses? Bom, nas minhas palavras “não está nada má, está até boa e estava à espera de menos, mas um dia estará bem melhor”. O Rui também gostou e ficou impressionado com o que conseguimos produzir. E os nossos amigos só não beberam mais porque nós temos poupado esta cerveja e abrimos uma garrafinha de vez em quando. Até o Jeff gostou e aconselhou-nos a aprender mais e de fazer outras experiências. Além disso, já conseguimos vender algumas a amigos (ou melhor, o Rui já vendeu algumas). E até temos um excel todo bonito com as nossas despesas e lucros até agora.

As nossas cervejas já engarrafadas e a fazer a sua fermentação final.

O que será do futuro da cerveja artesanal do Chico e do Rui? Bom, para já vamos encomendar mais latas diferentes e vamos aumentar a nossa produção comprando mais baldes de fermentação. Vamos fazer as experiências que já escrevi a cima, como acrescentar lúpulos e utilizar açúcares diferentes para a mesma cerveja e provar as diferenças. E ainda faltam outras coisas. Faltam-nos vocabulário de cervejeiro, experiência e experiências, e temos de perceber o que acontece em cada passo da produção de cerveja, para assim conseguirmos inventar outros sabores.

Desde que haja sede…

PS: este artigo não foi patrocinado, mas quase que foi, pela Casa da Cerveja Artesanal da Praia da Areia Branca, do nosso amigo e mestre cervejeiro Jeff. Obrigado!

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